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Calvície  
Fabio Andre Silva Reis
21 Jan 2009
Sheffield-UK
 
Via de regra, acreditamos piamente em certos motes e permanecemos escravos de grandes mentiras, cujos conteúdos são fartamente repetidos durante nossa breve existência.

Uma destas cantilenas é bastante conhecida: “é dos carecas que elas gostam mais”.

Quanta mentira. Quanta ilusão. Nunca encontrei qualquer facilidade em minha vida amorosa por conta dos poucos pelos que possuo no couro que, deveria ser cabeludo. Muito pelo contrário. Tenho de labutar árdua e severamente, como qualquer dos meros mortais, para despertar os cálidos interesses femininos.

A minha calvície constituiu-se pela gradual e progressiva perda de cabelos. Apesar da sensação singular de leveza, do amplo espaço para albergar novas ideias, do frescor dos pensamentos ao raiar do dia e da mente mais arejada que a ausência dos cabelos nos proporciona, a condição de calvo possui alguns inconvenientes.

Eu, por exemplo, não faço economias com o uso do xampu, condicionador, gel, escova, nem com a conta do cabeleireiro. O valor de tabela para cortar meus cabelos – permitam-me o exagero - é o mesmo que o utilizado para o corte dos cabeludos. Engana-se quem supõe que o corte com máquina, em lugar da tesoura, é mais barato. Pelo contrário, vou mais vezes ao cabeleireiro, pois o penteado desalinha mais rapidamente quando se tem pelos esparsos. Vale ainda lembrar os gastos adicionais com filtro solar e loções para desengordurar o couro pouco cabeludo.

Contudo, está cientificamente provado que, no meu caso, a calvície é androgenética. Explico. Ela resulta de fatores hereditários e outros relacionados ao excesso de testosterona: o hormônio masculino. Não quero dizer que sou mais cabra-macho que ninguém. Apenas possuo mais hormônios do que a média.

Minoxidil, Avicis ou chá com excremento de aves. Transplante capilar? Técnica folicular? Não! Só em pensar que tais medicamentos podem causar perda da libido, tenho vontade de ficar mais calvo ainda. A raiz do problema está plantada em outro lugar. Aliás, não há nem raiz, nem problema: nunca é demais lembrar que os altos níveis de testosterona significam maior virilidade.

Numa dessas minhas mudanças de residência, e de cabelereiro, cansei de procurar pelo lugar mais adequado, simpático e limpinho, fiz um breve sorteio mental e escolhi. Ao abrir a porta, dei de cara com uma bela loura, despretensiosa e inglesa. “Eis a minha mais nova cabeleireira”, pensei com segurança.

“Como o senhor está acostumado a cortar o cabelo?”, perguntou a bela moça. “Máquina um, por favor. Mas, na parte de cima, melhor raspar, pois senão fica desalinhado”, respondi com um calvo sorriso.
 
   
 

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