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Oxalá
Postagem: 26/02/2010
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Ser ou não ser
Tissiana Berenguer Cavalcante
Postagem em: 11/09/2009
Letícia voltava pra casa dirigindo. Já passava das onze horas. A rua estava bem calma, vazia... afinal, poucos se aventuraram a sair naquela noite de inverno. Apesar da forte chuva e do avançar do horário, numa cidade tão violenta, Letícia não dirigia com medo. A verdade é que estava destemida por estar imersa em seus pensamentos, que a dominavam causando uma enorme crise de identidade: “afinal, eu sou ou não sou uma mulher moderna, liberal?”.
Ela tinha acabado de sair do teatro. Havia se emocionado e aplaudido de pé seu namorado. Um aplauso sincero, vibrante, pois parte do seu coração estava contente com a realização daquele homem lindo, admirável e talentoso com quem ela vinha dividindo sua rotina. Mas só uma parte... porque a outra ainda estava atônita com a cena de beijo que ela acabara de presenciar.
A única visão que Letícia já tinha tido dele beijando alguém era a si mesma – e, é claro, uma visão desfocada, de tão aproximada... um grande nariz... os olhos fechados... enfim, um ângulo completamente diferente. Ela não sabia o que fazer com aquela imagem completa dele num beijo. Não era ele! Não podia ser! “Isso é que dá namorar com ator!” - pensava. E a cena se repetia sucessivas vezes, na sua cabeça, como editada à moda de Cinema Paradiso.
“Mas tudo bem!” – tentava se convencer. Letícia era vista como “moderninha”, chamada pelas amigas de “garota-cabeça”. Pelo menos... era o que pensavam sobre ela que, agora, tinha que se esforçar para fazer jus a essa imagem.
O golpe, entretanto, foi ainda mais forte quando, ao abraçá-lo na saída, ela foi informada de que eles não sairiam juntos para comemorar o sucesso da estréia - ELE sairia, sim, com a sua troupe de teatro, pois era de praxe que se reunissem.
Ela não teve outra opção a não ser acatar a decisão do seu namorado e, é claro, voltar pra casa com o rabinho entre as pernas e os pneus nas poças d´água daquela noite invernal. Chovia muito. Nessas horas, parece que a natureza se encarrega de chover ainda mais, pra nos obrigar a olhar tudo o que já está molhado, inundado por dentro.
E foi se olhando que Letícia descobriu que ela não era tão moderninha assim... e que há uma enorme distância entre ‘compreender’ e ‘ser capaz de viver‘ determinadas situações. No ato final, abriu-se cortina ‘shakespeariana’ e Letícia optou pelo “não ser” ao se dar conta de que ela não “dava conta” disso: “Chega de ser moderninha!”. Fechou-se a cortina.
(Escrito em: Salvador-BA, 10/09/2009)
(Leia também o texto da semana de Fabio.)
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Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência. |
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