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Apagaram o candeeiro
Fabio Andre Silva Reis
Postagem: 25/09/2009

Há coisas que só a gente consegue entender: mandacaru, sanfona, gibão de couro, vida sofrida, macaxeira com carne do sol no café da manhã e a ingenuidade dos festejos juninos. O forrozinho faceiro que exige somente um básico e completo “dois pra lá, dois pra cá”, sem rodopios exagerados ou desejo de impressionar. Apenas rostos colados, coxas entrelaçada e uma leve fungada no cangote da moça. Ser nordestino é uma experiência sensorial em todos os seis sentidos e todas as sete vidas.

A vida, a morte e a ressurreição severinas, a aridez do cangaço, a resignação, a revolta silente, o cheiro de orvalho na madrugada fria e o aroma da fogueira queimada. Uma infinidade de signos que adentram os poros e não carecem de tradução, adaptadores, filtros, nem conversores de qualquer natureza. Está tudo ali, simples e direto: conexão em alta velocidade, em banda larga.

Os festejos juninos são oriundos da festa pagã do solstício de verão, cristianizada na idade média, aportuguesada, incorporada aos costumes das populações indígenas e afro-brasileiras. Transformou-se e permanece em constante mudança, concordo. Mas essa carnavalização tem sabor de licor estragado e milho queimado.

Aberração ou evolução? Não ouço a sanfona, não ouço o triângulo, nem a zabumba. Ouço apenas os gemidos de redondas mulheres besuntadas a rebolar no palco. O trio nordestino foi para a capital. O cabra da peste faz a segurança do evento. Pobreza musical, pobreza de significados: uma fogueira sem calor. Para onde foram o traque de massa, a bomba de mil, o casamento do matuto, o forró no coreto da praça, a quadrilha, o bolo de puba e as bolinhas de jenipapo?

Nesse forró eu não vadeio mais, “apagaram o candeeiro, derramaram o gás”.


(Escrito em: Sheffield-UK, 23/09/2009)

(Leia também o texto da semana de Tissiana.)

Foto: Fabio Andre Silva Reis.








Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
 
 
 
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