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Chata de doer
Tissiana Berenguer Cavalcante
Postagem em: 25/09/2009

Amanda era chata. Chata de doer. Pelo menos, era o que suas amigas da academia costumavam dizer dela. A expressão empregada, apesar de chula, é sábia: dói ser chato. E muito. Dói aos amigos, aos familiares, aos colegas de trabalho... todos enfastiados com a convivência. Dói mais ainda ao chato ser taxado como tal – ou, “chatado”, pedindo licença ao Aurélio para nomear melhor esse sentimento.

Ser “chato de doer” é muito difícil. É muito pior que ser “feio de doer”. Porque a feiúra absolve o sujeito: ninguém tem culpa por ser feio. “Nasceu assim, a coitada...” A feiúra gera, até, empatia – olha o sucesso do Quasímodo, da Fera, do Patinho Feio... e de tantas outras personagens de histórias! Sim, a feiúra o absolve: o feio não poder fazer nada para mudar. Já a chatice... tem um quê de “opcional”. “Quem mandou ser chato?” Era assim que Amanda se sentia: condenada à chatice.

Ser chato é difícil, mas “se saber chato” é pior ainda. “E Amanda se sabia chata”. Mas um belo dia, resolveu mudar – “à la Rita Lee”, mesmo... resolveu e pronto. Não era “opcional”? Então! Recusou-se a encarnar a personagem da chata e decidiu: “a partir de hoje levarei uma vida normal”. Vale ressaltar que “normal”, para ela, era uma vida sem o isolamento que ela acabava procurando, por se saber chata.

Em busca de uma vida nova, Amanda resolveu se matricular numa aula de dança, num curso de inglês e em outro de teatro, pra ver gente. Esforçou-se ao máximo para superar sua dificuldade de ser aceita nos círculos e nas conversas, mas... nada de sucesso. Continuava chata. E percebia que todo mundo notava a sua condição, como se a chatice fosse uma enorme espinha vermelha na ponta do nariz de uma adolescente.

Amanda se esforçou um bocado. Procurou ser simpática, falante, como antes... procurou agradar todo mundo de toda forma... como antes... procurou estar atenta a tudo e a todos o tempo todo, também como antes. Mas não funcionou. Também como antes. Tentou tanto, se dedicou tanto, buscou tanto “ser” que se cansou. E cansada, caiu a ficha: sua chatice vinha justamente do “tentar”... “se esforçar para ser”, que pautou toda a sua vida. A partir deste dia, como que por um milagre, Amanda passou a simplesmente “ser”. E, “sendo” ela mesma, a chatice passou. Santo remédio.

(Escrito em: Vitoria da Conquista-BA, 24/09/2009)

(Leia também o texto da semana de Fabio.)


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Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
 
 
 
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