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A Liberdade é Azul
Tissiana Berenguer Cavalcante
Postagem em: 09/10/2009

Assisti a este filme aos 19 anos, quando na minha cidade só tinha uma sala de cinema de arte. A gente vivia antenado, esperando a estréia de cada filme novo, já que essa era a única opção de se ver cinema de qualidade. E aí entrou A Liberdade é Azul. O primeiro filme da trilogia do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Naquela época, eu ainda não o conhecia, mas após a sessão virei fã incondicional do seu trabalho, rico em sensibilidade.

Fiquei profundamente marcada por esse filme e, acho que talvez por isso mesmo, eu tenha evitado lhe re-assistir durante todos esses anos. Mas ele se manteve como um referencial. Indo além, posso até dizer que meu gosto pelo cinema pode ser dividido em duas fases: antes e depois dele.

15 anos após, esse filme cai na minha mão, como que “enviado do além”. Seria uma mensagem? Uma prova? Um rito de passagem? – não sei qual o significado dele me ter sido ofertado justamente agora, neste momento em que estou vivendo, mas meu lado espiritual me diz que, com certeza, algum deve haver.

Levei esses dois últimos meses “ensaiando” lhe re-assistir. Cheguei a colocá-lo no aparelho de DVD umas 3 vezes, mas sempre acontecia “algo” que me fazia deixar pra depois. Até que o dia chegou – ou melhor, eu o “fiz chegar”, dizendo-me: “é hoje”. E foi.

Confesso que re-assistir A Liberdade é Azul 15 anos depois foi uma experiência densa. Mesmo sozinha, diante de uma TV, tive o impulso de aplaudir, ao final do filme, como fazem os franceses diante de uma “oeuvre-d´art” – não sabia mais se pela orquestra, pela fotografia, pela interpretação... certamente, pela sincronia entre todos esses elementos, que conversam entre si, num filme que com tão poucas palavras traz tanto significado.

Revi cenas que marcaram meu imaginário cinematográfico: a velhinha tentando colocar a garrafa no receptor de lixo reciclado, o reflexo das imagens nos olhos das personagens, a atmosfera azulada pela luz do lustre, Juliette fazendo amor como se estivesse “embaixo da terra”. E re-ouvi frases igualmente inesquecíveis - para ser mais enfática, vou citar apenas uma: “é preciso se agarrar, se apegar a algo”.

Desta vez não chorei – talvez tenha entrado tanto no interior da personagem, que tenha absorvido seu bloqueio... ou talvez os 15 anos que se passaram tenham me tornado um pouco mais “dura”, não sei... mas o fato é que, quando aquele azul vivo, brilhante e inebriante envolve toda a tela, ao final do filme, não pude evitar de me emocionar e de me dar conta de que a liberdade, de fato, é azul, mas não é dada a ninguém de graça. Ela precisa ser conquistada. E consiste no estranho e contraditório exercício de desapego, de renúncia a certas coisas... ao mesmo tempo, “se agarrando a algo”.

(Escrito em: Salvador-BA, 04/10/2009)

(Leia também o texto da quinzena de Fabio.)








Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
 
 
 
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