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Oxalá
Postagem: 26/02/2010
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atalho_cronicas
Invisível aos olhos
Fabio Andre Silva Reis
Postagem: 16/10/2009
Um domingo calmo e ensolarado é o nosso cenário. Espalhamos todos os carrinhos, bonecos, bolas e demais tralhas infantis no chão do quarto. Sempre tive especial interesse pelos brinquedos de montar. Ele começa a brincar com a massa de modelar, mistura cores, amassa, junta pedaços disformes e, depois de algum tempo, saciado, coloca a obra sobre a mesa.
- Bela montanha! - digo com dificuldade para discernir o que seria aquele objeto disforme.
- Isso não é uma montanha papai. É minha nave espacial com turbinas de fogo, pronta para nossa viagem ao planeta Marte.
Mais uma lição.
Os nossos olhos se acostumam ao observável e se torna cego aos movimentos imperceptíveis, ao velado, ao não dito, às oportunidades que vêm vão. Perdemos a capacidade de enxergar com a mente. E, pouco a pouco, ela se atrofia. No fim, terceirizamos o trabalho dos nossos neurônios.
Na escola fui desaprendendo a imaginar e aprendi a decorar: fórmulas, regras e tabelas. No trabalho, não há tempo para devaneios nem pensamento crítico. A imaginação é vadiagem proibida e eu preciso pagar as contas que insistem em aparecer. Ainda aos trinta e poucos anos incompletos, acredito apenas no que vejo, no que é cru aos meus sentidos, e o que vejo é apenas a ponta do iceberg. O reflexo da luz que viaja e atinge a minha retina é mera fagulha do real. O essencial é invisível aos olhos.
Dinheiro não é real. É invenção humana, cada vez mais desprovida de lastro físico tangível. Uma casa velha e acabada aos olhos de alguns, será o marco inicial de uma grande rede de hotéis, quando vista por olhos empreendedores.
Mulheres não são reais. Gordurinhas, imperfeições e pernas não-torneadas podem ser a sentença de morte aos pensamentos libidinosos de alguns homens pouco criativos. Contudo, aos olhos mais atentos, serão a chave para a verdadeira beleza feminina, prestes a explodir, escondida sob as várias camadas; aquela que se vê quando fechamos os olhos e que nos envolve por completo.
Nós não somos reais. Seremos aquilo que nossa mente venha a imaginar. O dedo arrancado num torno mecânico, pode ser o dedo da mão que hoje assina documentos palacianos.
- E aqui está a cabine do comandante. E ali o escudo anti-mísseis inimigos.
- Ótimo, filho! Então é melhor vestirmos logo nossa roupa protetora contra raios-ultravioletas, pois o comandante já ligou os motores.
(Escrito em: Sheffield-UK, 14/10/2009)
(Leia também o texto da quinzena de Tissiana.)
Foto: Fabio Andre Silva Reis.
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Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência. |
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