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Reticências...
Fabio Andre Silva Reis
Postagem: 13/11/2009

Eu escrevo porque meus pensamentos não cabem em mim. Escrevo porque meu escrever é parte inseparável do meu pensar. É extensão natural do meu corpo. Quando não escrevo, minhas ideias evaporam, voláteis que são. Com minha pena úmida em contato com a folha de papel vislumbro o amorfismo dos meus pensamentos.

O atrito da ponta da caneta deixa marcas indeléveis nos contornos do papel. Serão pegadas a percorrer e interpretar. Serão caminhos muitas vezes íngremes e pedregosos. Borro, apago, reviso e rescrevo. Controlo cada passo, cada marca e também a ordem das palavras. Escolho o adjetivo que melhor traduz aquela qualidade idealizada. Lapido as farpas e os cantos impolidos. Escrevo porque tenho a chance de controlar. Deve ser por esse motivo que prefiro os filmes às peças de teatro. Prefiro a exatidão de uma cena gravada à exaustão do que o improviso profissionalmente transpirado à cada espetáculo.

Se viver fosse escrever, eu faria alguns retoques nos textos passados e daria forma aos textos futuros. Infelizmente, escrevo apenas o presente. É esse o único texto que controlo e tento dar forma, a apagar, revisar, tornar a escrever, e às vezes até tocar fogo no papel para usar as cinzas como tinta dos futuros textos presentes.

Sigo assim, a contornar delicadamente a superfície do papel com minha caneta, a pressionar as retilíneas formas do teclado com minhas mãos e a deixar a marca dos meus passos. Às vezes, suavemente. Outras vezes, com força. Movimentos incisivos e preguiçosos até o ponto final ou… até às próximas reticências…

Paro de escrever. Respiro. Novas ideias. Novos caracteres numa folha em branco. Então, ideias transformam-se em pegadas sobre um papel vazio. Então, as marcas de um pensamento fugidio viram bits e bytes. Do intangível ao tangível e de volta ao intangível.

Escrevo porque escrever pressupõe intimidade. Meus pensamentos traduzidos nas palavras tocam sua retina e invadem seu mundo. Eles produzirão novos pensamentos, não necessariamente aqueles por mim imaginados. Qual uma música que desperta aromas, memórias e imagens sequer pensados pela autora. Qual um vírus mutante que toma conta do sistema e foge ao controle do programador. Minhas palavras tornar-se-ão outras intenções, efeitos inesperados, outros textos.

Escrevo porque desperto sensações nos outros, ainda que à distância. Textos são projéteis, barulho e impacto. Sequer saberás de onde vêm as palavras. Quando pensares que lhe tocam os lábios, elas atacarão em outras frentes… ou costas. Palavras sussurradas ao ouvido, letras descendo pelo pescoço, exclamações bem apertadas à cintura, reticências… Escrevo porque minha libido escapa aos limites do meu corpo. Evapora pelos meus poros. As palavras liberam hormônios, arrepiam pelos, deixam marcas e lembranças até o ponto final…. ou até às próximas reticências...


(Escrito em: Sheffield-UK, 13/11/2009)

(Leia também o texto da quinzena de Tissiana.)

Foto: Fabio Andre Silva Reis.








Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
 
 
 
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