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Mulheres à beira...
Tissiana Berenguer Cavalcante
Postagem em: 20/11/2009

Nós, balzaquianas, somos “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. São tantas as demandas, desafios e metas que acabamos nos tornando um pouco insanas. Não que saiamos por aí jogando pedras pela rua, ou agredindo qualquer passante. O que acontece é que, acometidas de certos esquecimentos, passamos a ter comportamentos um tanto quanto estranhos. E não os contamos pra ninguém, com medo de ser novamente jogadas na fogueira, como loucas...

Aos 20 anos, vivíamos ‘ligadas em tudo’, líamos 3 livros ao mesmo tempo, prestávamos atenção a tudo e ainda conseguíamos trabalhar (com competência, diga-se de passagem) após uma noite “perdida” na Salsa. Agora, padecemos de dois limites: a fadiga física e a mental. Também, não é pra menos: quem consegue dar conta de filho, trabalho, casa, dinheiro...?

Eu juro que estava preocupada com meus esquecimentos e atos-falhos... outro dia, ao invés de pegar minha mochila para ir à academia, cheguei lá com roupa de malhar e 4 livros a tiracolo. O pessoal me olhou de soslaio e um arriscou me perguntar se, ao longo da malhação, eu iria ler tudo aquilo mesmo. Só então me dei conta da minha “troca” e saí pela tangente, dizendo que dali iria a uma biblioteca.

Pois é, eu vinha muito inquieta, até ouvir outras histórias semelhantes das minhas amigas. Aí me acalmei, pois me sinto um pouco mais ‘normal’ agora – ou, pelo menos, não me sinto sozinha na loucura.

Luciana saía de casa, na semana passada, para ir ao mercado, quando sua mãe lhe pediu: “filha, você aproveita que está descendo e joga esse saquinho no lixo da garagem?”. Ao que ela prontamente atendeu. No mercado, comprou tudo, pegou a fila do caixa e só quando foi pagar é que se deu conta: estava com o saquinho de lixo que sua mãe lhe dera. A bolsa? Advinhem...

Essas histórias de mercado são ótimas. Talvez por que ir às compras nos faça entrar em contato com a atual condição feminina de ter que ser “múltipla”. Compramos produtos para crianças, para a casa, para o marido (ou namorado), para nossa beleza e, até, material de escritório. Acho que isso mexe com nossos hormônios e estes, com nossos neurônios, porque os casos se multiplicam...

Debi, outra amiga, passou o maior vexame no mês passado. Foi fazer suas compras, pagou e se dirigiu ao estacionamento. Quando estava no meio do caminho, começou a ouvir ao longe um chamado: “Senhora...”. E ela nem se virou (imaginando que alguém se referia a alguma idosa). Mas a voz persistia e só quando já estava mais próxima foi que olhou para trás e viu um funcionário vindo apressado empurrando um carrinho: “A senhora não vai levar suas compras, não?” – ela as havia esquecido no caixa. E se fez de doida - “Mas é claro que vou levar!” - pra ver se o cara não perguntava mais nada.

A outra, saindo de casa apressada, pegou o guarda-chuva que estava no cabideiro, misturado com as roupas, e desceu o elevador. Um vizinho lhe olhou com certo estranhamento – seria uma nova modalidade de paquera? Passou pelo porteiro... idem. “Mas que ousadia!” – pensou. Só quando foi abrir o guarda-chuva, já na calçada, foi que se deu conta: nele estava preso um sutiã. Um sutiã???!!!! O “premiado” veio junto, quando tirou o guarda-chuva do cabideiro. Guardou-o rapidamente na bolsa e saiu pensativa. Talvez fosse um desejo inconsciente de atear fogo nele: afinal, alguém precisa tomar alguma providência, antes que tenhamos um ataque de nervos!

(Escrito em: Salvador-BA, 20/11/2009)

(Leia também o texto da quinzena de Fabio.)

Pintura: Márcia Berenguer








Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.
 
 
 
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