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Coadjuvante
Fabio Andre Silva Reis
Postagem: 02/05/2012
Foi com o seu costumeiro olhar cansado, falar pausado e movimentos solenes que meu pai confessou-me poucas semanas antes de vir a falecer:
– Filho, eu nunca gostei do ato sexual em si. Ele consome excessiva energia e resulta num mero espasmo de prazer. O que gosto, de fato, é da putaria.
Naquela ocasião fiquei espantado com tamanha sinceridade. De fato, demorei alguns anos para entender o que ele queria dizer. Perguntava-me como poderia ele não gostar do ato sexual, do vaivém cadenciado, do corpo nu no corpo nu, do cheiro do sexo, do deslizar dos corpos, dos gemidos de prazer. O ato sexual para mim é a prova da energia divina. É o meu encontro com Deus.
Hoje entendo o meu velho e experiente pai.
A putaria para ele era a sedução, a conquista, a safadeza. Era o processo para a satisfação dos seus desejos e não a satisfação em si. Era apenas a possibilidade da conquista, por mais remota que ela pudesse parecer. Era a provocação, o risco, o desejo não consumado à espera de momento mais oportuno. Era o olhar lascivo, a pegada na cintura, a frase espontânea dita ao pé do ouvido no momento inesperado. Era o forró dançado bem colado com direito à ereção sem constrangimentos bobos. A putaria era tudo aquilo a anteceder o ato sexual; era o sexo ainda não consumado.
E a putaria para ele não se restringia aos fins sexuais, mas era a vaselina da vida. Era o componente essencial para a satisfação dos seus desejos, fossem eles sexuais ou profissionais. Era a malícia, a malandragem para evitar enrascadas sem prejudicar ninguém. Era a autoridade, a experiência e a consciência do todo manifestadas num sorriso humilde e maroto. Era a calma, a serenidade e a certeza do sucesso nos momentos mais difíceis.
O ato sexual era para ele mero coadjuvante: uma sobremesa. O que ele gostava mesmo era do prato principal.
(Escrito em: Sheffield-UK, 01/05/2012)
(Leia também o texto da quinzena de Tissiana.)
Foto: Fabio Andre Silva Reis.
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Sobre o caráter ficcional das obras
As obras aqui publicadas são inteiramente ficcionais, em nada correspondendo ao comportamento ou opinião pessoal de seus autores. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência. |
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