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Treinando falcões  
Fabio Andre Silva Reis
08 Maio 2020
Bogotá
 
Em geral, as repartições publicas do nosso país gozam de má reputação. São bastante comuns as pilhas de documentos amontoados, a inconfundível desorganização por metro quadrado, os funcionários carrancudos e incomodados, e o aviso de que constitui crime ofender aos que ali trabalham.

Foi exatamente numa visita a uma dessas típicas e tediosas repartições que escutei uma interessante conversa, a qual compartilho com vocês.

O funcionário comentava com a sua chefe imediata algo sobre o treinamento de falcões ou falcoaria, para ser mais preciso. Não saberia dizer ao certo se ele treinava falcões, gaviões, águias ou condores, mas isso não possui importância. O fato é que o funcionário treinava falcões em seu tempo livre. Desses falcões que caçam outros bichos, controlam a fauna em aeroportos, derrubam drones ou executam outras tarefas menos honrosas.

Dizia ele a uma compenetrada chefe, que era necessário criar os falcões desde filhotes, desde seu nascimento, para que não tivessem contato com a vida selvagem e por conseguinte suavizassem a sua violência instintiva. A primeira visão que os pequeninos deveriam experimentar ao romper a casca, deveria ser o rosto do próprio dono, ao qual seriam eternos gratos e dependentes, quando bem tratados e treinados.

Ele contava que algumas vezes treinou sem sucesso falcões selvagens. Estes agrediam as pessoas, eram desobedientes e desconfiados, possuíam um instinto de bicar e lacerar tudo que encontravam pela frente. Nesse momento, entendi o porquê de o funcionário utilizar um distinto tapa-olho de couro negro, em seu olho esquerdo.

O funcionário continuava com a sua explanação. Explicava que mesmo os falcões domesticados desde pequeninos, possuíam suas idiossincrasias, as quais mereciam o devido cuidado. Por exemplo, afirmava que o treinador deveria sempre se abster de realizar movimentos bruscos, manter uma postura calma, nunca gritar ou bater no pássaro; caso contrário, ele se tornaria seu inimigo pelo resto da vida. Eram bichos profundamente rancorosos e vingativos.

Imediatamente lembrei-me de algumas pessoas com este temperamento de ave de rapina. Basta uma única palavra mal colocada, uma ação mal interpretada, um detalhe esquecido, um mero olhar de reprovação para que iniciem uma cruzada vingativa por anos a fio.

Dormi pensando nesta conversa, em busca de uma lição de vida que pudesse utilizar. Sonhei que era treinador de falcões, e amanheci com uma fome incontrolável.