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Dendê  
Fabio Andre Silva Reis
16 Jun 2009
Sheffield-UK
 
Posso morar em qualquer lugar do mundo, mas não sobrevivo dignamente sem meu azeite de dendê. Inglaterra, França, Islândia, Rússia, Colômbia ou Japão. Não importa o lugar, nem a cultura nem mesmo o idioma. Todos esses obstáculos são facilmente superáveis. A falta da rapadura e do guaraná é superável. Até mesmo a ausência da farinha de mandioca é superável – com algum trauma, claro! Mas o azeite de dendê... ah, ele é imprescindível.

Confesso: sou dendê-dependente. Uma dependência relacionada talvez ao sangue africano ou à elevada quantidade de vitamina A presente no óleo, ou mesmo, devido a razões místicas e ancestrais inexplicáveis. Não sei. Só sei que não sei viver sem o azeite de dendê. Lubrificante natural, fluído ancestral, fruto de árvore sagrada. Qualidades não lhe faltam, assim como não faltarão explicações para as origens dessa minha dependência visceral.

A cor morena avermelhada, a viscosidade singular e o cheiro característico compõem o perfume que permanecerá horas e horas nas narinas, após um rico e diverso banquete baiano. Permanecerá no sangue, no olfato, na pele. E mancha de dendê, todos sabemos, não sai, fica impregnada. Não adianta lavar, ensaboar, escovar, nem mesmo alvejar. É marca indelével de personalidade forte e inconfundível. É a prova do crime. É o cheiro inconfundível dos amantes surpreendidos e encabulados.

Estivesse sob o calor tropical, a respirar o vapor do dendê misturado ao aroma do mar, rememoraria o autêntico perfume da miscigenação brasileira e os segredos do tabuleiro da baiana: ebós, vatapás, acarajés, bobós, carurus e as mais deliciosas moquecas. Mas não estou. E aqui, o dendê vem de Gana, o leite de coco é tailandês e o camarão é vietnamita. “Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia; ai, se eu escutasse o que mamãe dizia...”.